O Dia do Pedagogo, celebrado em 20 de maio, é uma oportunidade não apenas de homenagear esses profissionais da educação, mas sobretudo de refletir criticamente sobre o papel social, científico e político da Pedagogia. Em uma sociedade marcada por desigualdades e desafios cada vez mais complexos no campo da formação humana, o trabalho do pedagogo permanece essencial – embora ainda frequentemente incompreendido e desvalorizado.
Historicamente, a figura do pedagogo foi associada de maneira simplificada à docência nos anos iniciais ou às funções burocráticas da escola. Essa percepção limitada obscurece a amplitude de conhecimentos que constituem a Pedagogia enquanto campo científico. Mais do que um conjunto de técnicas de ensino, a Pedagogia é uma ciência da práxis: um campo de produção de conhecimento que articula teoria e prática de forma crítica, reflexiva e transformadora. Como explica Libâneo (2011, p. 6), a Pedagogia
diz respeito a uma reflexão sistemática sobre o fenômeno educativo, sobre as práticas educativas, para poder ser uma instância orientadora do trabalho educativo.
Ao compreender a educação como fenômeno humano, social, histórico, cultural e político, a Pedagogia investiga profundamente os processos de formação dos sujeitos em diferentes contextos. Isso significa que o pedagogo não atua apenas no ensino de conteúdos, mas no planejamento, na formulação, na construção e na gestão de condições para que o ensino e a aprendizagem ocorram de maneira efetiva, significativa, democrática e emancipadora.
Tendo a educação como seu objeto de estudo em suas diversas e amplas dimensões, a Pedagogia se assume como uma ciência interdisciplinar que exige domínio de conhecimentos interligados de diversos campos, como filosofia, sociologia, psicologia, história, políticas públicas, didática, currículo, gestão educacional e avaliação; e, além disso, se debruça sobre temáticas como inclusão, cultura, comunicação e sua multiplicidade de linguagens, tecnologias digitais, entre outras. Dessa forma, a profissão do pedagogo exige formação interdisciplinar que permita a compreensão da educação e do processo educativo em suas múltiplas dimensões e complexidades (Freitas, 2016).

Nesse sentido, a profissionalidade do pedagogo não pode ser reduzida a uma prática intuitiva ou meramente vocacional. O exercício da Pedagogia demanda sólida formação científica, capacidade de análise crítica da realidade, planejamento, mediação de conflitos, elaboração de estratégias pedagógicas e compreensão das condições concretas em que os processos educativos acontecem, compondo um conjunto amplo de conhecimentos e práticas, como elenca Masetto (2012, p. 32):
o processo de ensino-aprendizagem, a concepção e gestão do currículo, a integração das disciplinas como componentes curriculares, a compreensão da relação professor-aluno e aluno-aluno, a teoria e prática da tecnologia educacional, a concepção do processo avaliativo e suas técnicas para feedback, o planejamento como atividade educacional e política.
Ao atuar em escolas, universidades, movimentos sociais, espaços não escolares, projetos sociais, empresas, hospitais e ambientes culturais, o pedagogo reafirma o caráter amplo da educação como prática social. Seu trabalho envolve formar sujeitos, construir possibilidades de participação social e contribuir para a democratização do conhecimento. Esse profissional, como mostra Franco (2002), estará:
prioritariamente no exercício da prática pedagógica quando estiver com os coletivos dos participantes da prática educativa, orientando, esclarecendo, conscientizando e produzindo elementos (teorias e ações) para transformação dos sujeitos, das práxis e das instituições.
Celebrar o Dia do Pedagogo, portanto, implica também a melhoria dos cursos que formam esses profissionais e o enfrentamento dos discursos que desqualificam a educação e fragilizam o reconhecimento daqueles que nela atuam. Dessa forma, mais do que homenagens protocolares, o dia 20 de maio deve servir como um convite à reflexão sobre: que mundo e sociedade queremos? E, para construí-lo: que educação precisamos oferecer às pessoas para que elas sejam capazes de realizar a construção desse mundo?
É preciso sempre ter em vista que, para viabilizar essa educação, é necessário promover a valorização efetiva do pedagogo: melhoria salarial e das condições de trabalho, reconhecimento intelectual e fortalecimento das políticas de formação. Afinal, compreender a educação em profundidade é uma tarefa complexa – e os pedagogos se dedicam a esse desafio.
E, por fim, mas não menos importante, é fundamental refletir sobre o reconhecimento da relevância da Pedagogia, e isso significa compreender que educar nunca foi um ato simples que possa ser apropriado de forma parcial; ao contrário, exige pensamento complexo, como formulado por Morin (2000), ou seja, o tipo de pensamento que:
Busca religar os conhecimentos dispersos e integrar cultura científica e cultura humanística (Petraglia, 2022).
Todos os aspectos aqui destacados se justificam pelo fato de que educar deve ser um compromisso ético, científico e político com a transformação humana e social.
Referências
FRANCO, Maria Amélia Santoro. Indicativos para um currículo de formação de pedagogos. In: ROSA. D. E. G.; SOUZA, V. C. de (orgs.). Políticas organizativas e curriculares, educação inclusiva e formação de professores. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.
FREITAS, Silvana Alves. Formação inicial de pedagogas(os) para a concepção e gestão do currículo. 2016. Tese (Doutorado em Educação: Currículo) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2016.
LIBÂNEO, J. C.; PIMENTA, C. G. Formação dos profissionais da educação: visão crítica e perspectivas de mudança. In: PIMENTA, C. G. (org.). Pedagogia e Pedagogos: caminhos e perspectivas. 3. ed. São Paulo: Cortez 2011.
MASETTO, Marcos Tarciso. Inovação curricular no ensino superior: organização, gestão e formação de professores.In: MASETTO, M.T. (org.). Inovação no ensino superior. São Paulo: Loyola, 2012.
MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Trad. Eloá Jacobina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.
PETRAGLIA, Izabel. Edgar Morin e o pensamento complexo: problemas precisam de respostas que consideram as diversas áreas do conhecimento. Revista Ensino Superior, 12 jan. 2022.
Silvana Alves Freitas
Pedagoga, especialista em Gestão Educacional, MBA em Gestão Estratégica de Instituições do Ensino Superior, mestre e doutora em Educação: Currículo. Diretora-geral da Faculdade Amplia e editora do Blog Viver, do Grupo Editorial Multiverso das Letras.









