29 de junho de 2026

Linguagens e metodologias ativas

Definitivamente, é preciso entender que um estudante sentado em sua carteira apenas ouvindo de forma passiva o que um professor tem a dizer e a transmitir remete a processos educacionais dos séculos passados. Com mais de um quarto do século XXI já percorrido, é mais do que necessário entender que as metodologias ativas vieram como alternativas de novos caminhos para colocar o estudante como elemento-chave do processo de transmissão do conhecimento. O foco não deve mais estar centrado no conhecimento como algo a ser transmitido, mas em como ele pode ser trabalhado e compreendido. 

William Glasser, que foi um psiquiatra norte-americano nascido no século XX e falecido no século XXI, desenvolveu a teoria da escolha, um conceito que enxerga o professor como um guia que deve incentivar a autonomia do estudante no processo de aprendizado, indicando que ele deve aprender fazendo e, portanto, praticando. Não se sabe ao certo se é mesmo dele a ideia da pirâmide da aprendizagem; de qualquer forma, muitos atribuem a ele a ordenação quanto à porcentagem de retenção do conhecimento segundo os seguintes processos envolvidos: 

Processos passivos: leitura – 10%; audição – 20%; visualização – 30%; audição + visualização: 50%. 

Processos ativos: discussão – 70%; prática – 80%; ensino – 95%. 

Fica evidente que os processos ativos – como discussãoprática e ensino – favorecem a melhoria no entendimento e na retenção dos mais diversos conhecimentos. Agora a pergunta: como é possível trabalhar com metodologias ativas para que ocorra a aprendizagem de tantos conhecimentos da área de Linguagens? 

Antes de seguirmos, você sabe o que são metodologias ativas e suas relações com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento que descreve as aprendizagens básicas e essenciais para todos os estudantes brasileiros? Pois bem, segundo a BNCC,

“[…] os itinerários devem garantir a apropriação de procedimentos cognitivos e o uso de metodologias que favoreçam o protagonismo juvenil” (p. 478). Vamos pensar um pouco sobre esta parte: “[…] que favoreçam o protagonismo juvenil”.

Embora nesse trecho o direcionamento seja dado à etapa juvenil, é muito importante que façamos uma reflexão sobre a expressão “que favoreçam o protagonismo”, e não apenas o protagonismo juvenil, mas de todo e qualquer estudante brasileiro da Educação Infantil, do Ensino Fundamental e, finalmente, do Ensino Médio. Protagonismo! Eis a palavra-chave que certamente respalda os diversos caminhos possíveis de usos de metodologias ativas. E quais metodologias são conhecidas para designá-las de metodologias ativas? Vamos observar as mais consagradas. 

Sala de aula invertida: metodologia que incentiva o estudante a exercer alguma autonomia uma vez que solicita a ele que estude previamente algum conteúdo para, depois, em sala de aula, estabelecer discussões para entendimentos e práticas. Lembra a porcentagem estimada de retenção do conhecimento que acontece diante da presença da discussão? 70%! 

Aprendizagem por pares ou pequenos grupos: metodologia que incentiva a autonomia e o protagonismo dos estudantes – diante de algum direcionamento prévio do professor, são os alunos que se tornam os condutores das discussões e das trocas de conhecimentos. Para colocar em prática esta metodologia, é sempre interessante que estudantes com níveis de aprendizagem diferentes possam estar juntos; desse modo, aquele com aprendizagem mais avançada é incentivado a transmitir conhecimentos àquele(s) ainda não tão avançado(s), favorecendo assim o protagonismo estudantil e a consolidação do conhecimento em si. Lembre-se da porcentagem apontada para a retenção do conhecimento quando ele é ensinado: 95%! 

Rotação por estações: metodologia que incentiva dividir a turma e as atividades em pequenos grupos, compondo assim diferentes estações de aprendizagem pelas quais os estudantes circulam. Cada estação apresenta uma atividade distinta e predeterminada, física ou digital, diante de um tema central a ser desenvolvido. A multiplicidade de olhares ganha força com essa metodologia. 

Aprendizagem baseada em projetos: metodologia ativa que incentiva os estudantes a desenvolver conhecimentos por meio de investigações e levantamentos de possibilidades diante de problemas e situações reais. Desenvolve a autonomia, a criatividade e a colaboração, colocando os estudantes como protagonistas enquanto o professor exerce o papel de orientador, conectando assim teoria e prática. 

Cultura maker: também conhecida como “mão na massa” ou “faça você mesmo”, é uma metodologia que promove o aprendizado de forma ativa por meio do fazer, que incentiva o estudante a desenvolver a criatividade, a projetar, a criar seus próprios objetos e soluções. Estimula a inovação e o pensamento crítico. 

Gamificação: essa metodologia tem por base o uso estratégico de mecânicas, dinâmicas e elementos de jogos (pontos, rankings, missões) que certamente tendem a aumentar o engajamento dos estudantes, a motivação, a autonomia e, consequentemente, o aprendizado de conteúdos correlacionados. 

E como é possível incentivar o estudante a ser mais autônomo e protagonista diante dos conteúdos da área de Linguagens? Vejamos algumas possibilidades. 

Em Língua Portuguesa, é possível desenvolver propostas para a realização de oficinas de produção textual nos mais diversos gêneros, ou ainda criar projetos de pesquisa sobre determinado tema para posterior debate orientado por questões comunicativas, entre outras tantas possibilidades, trazendo assim entendimentos e o desenvolvimento de competências discursivas e metalinguísticas importantes aos estudantes. 

Já para Literatura, propostas como formação de clubes de leitura com mediação estudantil; encenações dramáticas; releituras multimodais (quadrinhos ou vídeos, por exemplo); ou ainda desenvolvimento de projetos de curadoria literária (exposição escolar) podem incentivar uma aproximação afetiva e crítica do texto literário, além de colocar a leitura como prática social e criativa. 

Para as línguas estrangeiras, é fundamental incentivar os estudantes a fazer tarefas comunicativas reais como simulações; projetos internacionaisetandem (uma modalidade de intercâmbio linguístico on-line); ou ainda aprendizagem baseada em tarefas (taskbased learning) e criação de produtos multimodais (vlogs, campanhas). Tudo isso pode ajudá-los a alcançar fluência comunicativa na língua estrangeira em questão; já que, desse modo, eles tendem a estar mais motivados pelo uso mais autêntico da língua. 

Em Arte, propostas para a criação de ateliê abertoprojetos interdisciplinares (cenografia para peças literárias, por exemplo); exposições públicas das produções artísticas; exercício de análise e crítica entre pares… tudo isso favorece o desenvolvimento de processos criativos, da experimentação e da leitura crítica de cenas e imagens, o que definitivamente colabora para uma formação artística mais experienciada pelos estudantes. 

Finalmente, em Educação Física, o incentivo a práticas corporais por meio de jogos cooperativos com objetivos táticos definidos; o desenvolvimento de projetos que remetam a saúde e bem‑estar (como planejar campanhas de conscientização); ou ainda a criação de treinos por grupos para checagem de desempenho e autorreflexão… todas essas possibilidades trazem consigo diferentes competências socioemocionais envolvidas, que podem trabalhar a coordenação motora e o entendimento dos limites do corpo. 

Esses são alguns exemplos de como as metodologias ativas podem e devem fazer parte do processo de ensino e aprendizagem de alguns conteúdos da área de Linguagens. 

Curtiu? E agora? Vamos pensar e criar mais e mais situações para colocar os estudantes como verdadeiros protagonistas em suas jornadas estudantis? 


Referências 

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/a-base. Acesso em: 31 jan. 2026. 

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 2007. 

GADOTTI, M. Perspectivas atuais da educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000. 

GLASSER, Willian. Pirâmide de Aprendizagem. Polo Sebrae de Educação Empreendedora, 29 set. 2022. Disponível em: https://cer.sebrae.com.br/blog/piramide-de-aprendizagem-de-willian-glasser/. Acesso em: 30 jan. 2026. 

SANTOS, Gislaine Flávia dos. Metodologias ativas como processo de aprendizagem significativa no Ensino Básico. 2020. Monografia (Especialização em Educação: Métodos e Técnicas de Ensino – Modalidade de Ensino a Distância) – Universidade Tecnológica Federal do Paraná – UTFPR – Câmpus Medianeira. Disponível em: https://repositorio.utfpr.edu.br/jspui/bitstream/1/26851/1/metodologiasaprendizagemensinobasico.pdf. Acesso em: 31 jan. 2026. 


Helder L. Tiso 

Graduado em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP). Amante de música e de esportes, é editor na área de Linguagens na Multiverso das Letras. 

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