Nas últimas décadas, a educação tem passado por profundas transformações, tornando o trabalho docente cada vez mais desafiador. Diante das demandas atuais de ensino às novas gerações, a prática docente envolve desafios constantes que sofrem variáveis dependendo da etapa do ensino e de outras circunstâncias específicas do ambiente educacional. Os professores e as professoras precisam desenvolver novas habilidades, buscar novos conhecimentos e, sem perder o lugar de liderança da sala de aula, é essencial que se mostrem flexíveis diante das demandas dos estudantes e de seus familiares.
No cenário atual, os impactos na prática docente vão além da relação de aprendizagem e transmissão de conhecimentos. Fatores como condições de trabalho desfavoráveis, pressão institucional, desvalorização da categoria, gestão de comportamento, falta de recursos ou de infraestrutura e sobrecarga de trabalho atingem intimamente o docente, sobretudo na relação consigo mesmo.
Todas essas condições, em conjunto ou de maneira isolada, levam a problemas como estresse crônico, ansiedade, depressão, síndrome de Burnout e afastamento do trabalho, disparando um alerta sobre o bem-estar docente no ambiente educacional.
O bem-estar no ambiente educacional
A saúde mental no ambiente de trabalho entrou em destaque nos últimos tempos. A legislação brasileira tem evoluído para tornar obrigatório o tema que trata de cuidados com a saúde mental por meio da instituição de normas que impõem a gestão de riscos psicossociais no ambiente de trabalho. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) o trabalho saudável evolve um conjunto de condições favoráveis ao desenvolvimento do trabalhador quando oferece reconhecimento, apoio, segurança, e oportunidades de desenvolvimento. Além disso, essas condições evidenciam também a saúde mental docente.
Diante do aumento de relatos de sofrimento psíquico no ambiente escolar e da necessidade de estimular práticas que promovam o bem-estar dos profissionais de Educação, foi instituída a Política de Bem-Estar para Profissionais de Educação com o objetivo de desenvolver ações direcionadas à saúde integral e à prevenção ao adoecimento.
Algumas outras políticas públicas têm incorporado aos currículos escolares o bem-estar, o desenvolvimento socioemocional e a saúde mental. Mesmo que no ambiente educacional seja comum que a atenção e o cuidado sejam voltados aos estudantes, é evidente que a saúde do professor causa impacto na escola e que o sofrimento psíquico não identificado e não cuidado pode comprometer a qualidade do ensino e a segurança emocional dos estudantes.
O fortalecimento de políticas públicas voltadas à saúde mental docente, além de ser uma medida de proteção aos estudantes que estão em contado direto com os professores, representa uma ação de interesse para com a categoria profissional. Se o professor não está bem, o ensino como um todo também sofre.
O invisível na escola

Ao falar sobre o bem-estar docente e seus impactos no ambiente educacional, é comum associar o tema saúde mental apenas à redução do estresse. A OMS considera que a saúde mental é um direito humano fundamental e que esse estado de bem-estar não se limita à ausência de doenças; isto é, se focado no equilíbrio emocional e funcional, ele facilita o desenvolvimento de habilidades para lidar com situações normais de estresse na vida, bem como habilita o profissional a trabalhar de forma produtiva.
A docência, ainda que seja considerada uma fonte de realização pessoal ao ser escolhida como profissão, torna-se complexa ao exigir constante equilíbrio entre competências técnicas – que compreendem a própria prática pedagógica – e a sensibilidade humana para lidar com a diversidade e as limitações do sistema educacional público ou privado. Para manter esse equilíbrio, os aspectos emocionais são mascarados pela postura profissional e pelo bom desempenho.
O esforço contínuo para suprimir emoções consideradas negativas (como raiva, frustração e tristeza) e forçar a demonstração de emoções positivas (como paciência e entusiasmo) reforçam a sensação de ineficiência e o descompasso emocional que levam à exaustão. Ao vivenciar esse grande cansaço emocional e mental, que torna invisíveis os sofrimentos, alguns desenvolvem a sensação de desconexão e estranheza entre os sentimentos, os pensamentos e o corpo físico.
A ausência de bem-estar, além de comprometer a saúde mental, alterna-se com outros sintomas, como:
- Percepção inadequada da realidade
- Incapacidade de exercer autocontrole sobre o comportamento
- Autoestima baixa
- Dificuldade de formar relacionamentos afetivos
O aumento de licenças médicas é resultante dos impactos invisíveis do sofrimento prolongado, que se tornam visíveis pelo adoecimento físico manifesto em constantes dores musculares, distúrbios digestivos, insônia, crises de enxaqueca ou outros.
Cuidando da mente de quem forma mentes
Paulo Freire (1997) disse: “O ato de ensinar exige a existência de quem ensina e de quem aprende”. Para que o professor continue existindo, mesmo diante de limitações estruturais, é preciso algumas práticas individuais que são fatores protetivos:
- Nomear o que sente:reconhecer e diferenciar os sinais de exaustão, irritabilidade, insônia, desânimo ou dificuldade de concentração.
- Libertar-se da culpa: não sentir culpa por priorizar a saúde mental; é preciso manter equilíbrio e estar bem consigo mesmo.
- Estabelecer limites:definir horários para encerrar tarefas de trabalho em casa, para responder mensagens de trabalho, assim como para lazer e descanso.
- Praticar o tempo da pausa: ao longo do dia, reservar pausas curtas para respirar, alongar e beber água.
- Planejar com flexibilidade: ajustar metas e prioridades sempre que for necessário e evitar o perfeccionismo, que apenas causa frustração.
- Manter rotinas de autocuidado: estabelecer a prática de exercícios físicos, alimentação equilibrada e horas de sono adequadas.
- Cultivar a inteligência emocional: NEXT é um método de ensino oferecido pela Viver Editora e tem o objetivo de melhorar a postura e o desenvolvimento emocional.
- Ter uma rede de apoio: conversar com colegas, dividir estratégias que funcionam para administrar as situações mais estressantes do trabalho, além de respeitar e apoiar outros professores.
- Buscar ajuda especializada:a psicoterapia ajuda a lidar com as cobranças e o estresse enraizados na prática docente. Quando o adoecimento se instala, é preciso orientação médica para o uso de medicamentos.
É imprescindível reconhecer o papel ativo que cada um tem no cuidado de si e entender que alguns sinais de alerta para estresse, ansiedade e depressão são sérios e precisam de acompanhamento especializado.
Falar sobre a saúde mental docente deve se tornar uma prática constante por ser essencial para, de forma mais humana, transformar a educação a partir do cuidado com quem ensina.
Referências
BRASIL. Lei nº 14.681, de 18 de setembro de 2023. Institui a Política de Bem-Estar, Saúde e Qualidade de Vida no Trabalho e Valorização dos Profissionais da Educação. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 19 set. 2023.
BRASIL. Lei nº 14.819, de 16 de janeiro de 2024. Institui a Política Nacional de Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 14 jan. 2024.
FREIRE, Paulo. Professora sim, tia não. Cartas a quem ousa ensinar, v. 10, p. 27, 1997.
MADALOZZO, Magda Macedo et al. Saúde mental dos professores e possibilidades de intervenções: uma revisão da literatura. Revista Latinoamericana Ambiente & Saúde, v. 7, n. 4 (especial), p. 41-48, 2025.
SILVA, Jerto Cardoso da et al. Saúde mental, adoecimento e trabalho docente. Psicologia Escolar e Educacional, v. 27, p. e242262, 2023.
Eneida Torres
Psicóloga Clínica, Educadora e Escritora
Doutora em Psicologia Educacional
Currículo Lattes









